
16 agosto 2008

ACORDA PRA CUSPIR ou CULPA
Não pode comer doce
Não pode fumar
Não pode beber cerveja
Bebe água
Come uma maça
Meditação
Não se estressa
Esquece a sensação
Vai com calma
Esquece ela
Segura a barriga
Simpatia
Linha reta
Linha reta
Olha pra frente
Não pensa no passado
Pensa no futuro
Não pensa no futuro
Pensa no presente
O futuro virou presente
Vai pra frente
Vai pra frente
Sorridente
Pensa cinza
Juliana
Não se estressa
Vai com calma
Pedro
Sem emoção
Respeita os mais velhos
Dois a zero pro Flamengo
Poeira do universo
Presta atenção
Sem se envolver
Cultura
Cultura
Loira burra
Luz elétrica
Gente doida
Linha reta
Linha reta
Acorda pra cuspir
Equilibra o rebolado
Reza pra Jesus
Aprende o português
Estuda tailandês
Recebe o troco
Junta um dinheirinho
Imita um passarinho
Fica em casa
Toma banho
Troca a roupa
Põe uma cueca apertada
Põe o coração pra bater
Come carne
Come frango
Foda-se aquela mulher
Vagem
Arroz com brócolis
Sementinha
Acorda
Levanta
Vive
Dorme
Obrigações
Situações
Vaudeville
Linha reta
Linha reta
Fernando Pessoa
Não pode fumar
Não pode beber cerveja
Bebe água
Come uma maça
Meditação
Não se estressa
Esquece a sensação
Vai com calma
Esquece ela
Segura a barriga
Simpatia
Linha reta
Linha reta
Olha pra frente
Não pensa no passado
Pensa no futuro
Não pensa no futuro
Pensa no presente
O futuro virou presente
Vai pra frente
Vai pra frente
Sorridente
Pensa cinza
Juliana
Não se estressa
Vai com calma
Pedro
Sem emoção
Respeita os mais velhos
Dois a zero pro Flamengo
Poeira do universo
Presta atenção
Sem se envolver
Cultura
Cultura
Loira burra
Luz elétrica
Gente doida
Linha reta
Linha reta
Acorda pra cuspir
Equilibra o rebolado
Reza pra Jesus
Aprende o português
Estuda tailandês
Recebe o troco
Junta um dinheirinho
Imita um passarinho
Fica em casa
Toma banho
Troca a roupa
Põe uma cueca apertada
Põe o coração pra bater
Come carne
Come frango
Foda-se aquela mulher
Vagem
Arroz com brócolis
Sementinha
Acorda
Levanta
Vive
Dorme
Obrigações
Situações
Vaudeville
Linha reta
Linha reta
Fernando Pessoa
09 agosto 2008

Qualquer merda me dá angústia. Hoje em dia... Nos dias de hoje, qualquer merda me angustia. To ficando puto. Eu não gosto da angústia, mas acho que a filha da puta gosta muito de mim. Arriscaria dizer que ela me ama. A filha da puta. Se fosse outra pelo menos... Mas logo a angústia. Se fosse a raiva eu acho que eu seria mais feliz. Seria raivoso. Acho que, do jeito que eu sou angustiado, eu seria bem raivoso! Mas seria feliz. Angústia não é relacionada a nada bom. Eu preferia ser canhoto do que ser angustiado. Por que, por mais escroto que a gente ache, quem é canhoto gosta de ser canhoto. Todo mundo sabe que é uma merda ser angustiado. Mas quem tem angústia não gosta de ter angústia. Nunca escutei nem um comentário bom. Ninguém nunca me disse – adoro essa sua angústia de viver! Nunca soube de ninguém que tenha relacionado essa desgraça a inteligência. Nunca alguém falou – os grandes pensadores e revolucionários eram todos dotados de muita angústia. Nunca. Ou, se falou, falou baixo.
To escutando Caetano. Me angustia. Mas, continuando...
Quando alguém falou de angústia, falou mal. Se é que alguém fala de angústia, quem não tem não lembra. Só escuto sobre angústia quando falam mal de mim – nossa, como você é angustiado. Eu sei! Eu já notei antes de você me dizer! Peguei você! Bando de idiota. Bando de desangustiado.
O Caetano é incrível, a gente se emociona. Mas angustia horrores. Enfim...
Detesto quem não tem angústia.
“Soy loco por ti América” ·
Que merda, né? Eu não gosto de quem não gosta da minha angústia... Eu não gosto de mim por que tenho angústia... Poucas pessoas não ligam pra minha angústia... Ninguém gosta. Ninguém gosta dela! Ninguém no mundo gosta dessa merda de sentimento. Se é que se pode chamar de sentimento. Angústia. Que merda é essa?
“Soy loco por ti de amores”.
Angústia... Vou perguntar pro Caetano.
ME CONTARAM NO FINAL DE SEMANA PASSADO, NUM CURAL (uma confissão)
Eu sou um boi. Um boi mesmo - o primo do touro, o marido da vaca, o que você preferir. E o que eu vou contar não tem graça nenhuma. Na verdade, meu único motivo de inspiração é poder compartilhar com vocês uma dúvida de lingüística etimológica idiota que não sai da minha cabeça. Aconteceu quando eu estava sozinho, migrando. Passei, uma vez, mais ou menos umas três semanas peregrinando pelos pastos do sudeste, bebendo água de rio sujo, comendo grama com lama e dormindo sempre em pé e sempre mal. Essa história pode parecer mentira, mas eu vi, ninguém me contou.
Eu sou um boi. Um boi mesmo - o primo do touro, o marido da vaca, o que você preferir. E o que eu vou contar não tem graça nenhuma. Na verdade, meu único motivo de inspiração é poder compartilhar com vocês uma dúvida de lingüística etimológica idiota que não sai da minha cabeça. Aconteceu quando eu estava sozinho, migrando. Passei, uma vez, mais ou menos umas três semanas peregrinando pelos pastos do sudeste, bebendo água de rio sujo, comendo grama com lama e dormindo sempre em pé e sempre mal. Essa história pode parecer mentira, mas eu vi, ninguém me contou.
Quando você já está andando sozinho há mais de sete dias você fica doido. Doido e exausto. Não dava pra saber o que era verdade ou não, a não ser que fosse claro demais. Dessa vez não era ilusão, por que era claro demais - uma porteira, no meio do pasto cinza. Quando o pasto é cinza geralmente não tem nada, mas tinha. Uma construção longa e gorda foi crescendo conforme eu me aproximava, e junto aumentava o ruído de bois mugindo (que, na hora eu pensei, quebrava o clima de solidão). Sei lá quantas vacas estavam lá dentro. Cara de matadouro. Aquilo era um matadouro. Que porra é essa?
Fui com calma. Me aproximei de um basculante mais alto do que eu, que era a única janela visível daquele bloco maluco de concreto, e dei uma olhadinha difícil lá pra dentro. Não vi nada. Será que tinha outra janela? Não dava pra saber, era enorme. Segui o muro por dois minutos e notavelmente os gritos aumentaram. Agora dava pra saber que os ruídos que eu tinha escutado antes eram nítidos gritos de humanos do sudeste. E depois de mais dois minutos tensos de percurso eu reparei uma janela - que não era um basculante. Deu pra ver tudo!
Foi chato. Acho que eu não queria ter passado por isso, a cena mais desagradável que eu já vi na minha vida. Era realmente um matadouro. E os gritos eram realmente de humanos. Humanos estavam pendurados por correntes, um por um, em minúsculas baias de concreto ao longo de um galpão enorme. Eram muitos, centenas. Os bois circulavam em silêncio entre os homens e mulheres pendurados. Estavam todos muito gordos e com as pernas fininhas. Dizem que eles ficam anos nessas posições pra poder engordar bastante. Passei também pela situação de ver uma gordinha ser fulminada por um dos bois, um boi com chifres enormes. Mas eu não vou contar. Fiquei pensando, será que eles comem essas pessoas? E se não comem, pra quem vendem tanta carne?
Nesse tempo todo ninguém me viu. Fiquei assistindo aquela cena bizarra e pensando se essas pessoas seriam servidas em alguma mesa de jantar. Cheguei à conclusão de que esses bois deveriam ser antropófagos. Não seria isso? Quem come carne humana é antropófago. Ou antropofagia é a mesma coisa que canibalismo? Porque canibais aqueles bois só seriam se estivessem comendo bois. Essa questão não me abandona desde então. Eu, naquela circunstância, senti a tentação de tirar a minha dúvida com algum daqueles humanos, mas nem sei se eles saberiam me responder, não faço idéia do grau de alfabetização daquela gente. Quem é antropófago? É aquele que come carne de gente ou gente que come carne de gente? E se quem está comendo a carne for um poodle? O poodle com certeza não é canibal, disso eu sei, mas eu queria saber se ele é antropófago! Bom, continuei caminhando sozinho. E foda-se essa porra de língua, eu nem falo português, não me serve pra nada. Que loucura...
08 agosto 2008

DEIXA A MENINA SOLTA
Eu não!
Deixa ela quebrar a cara pra aprender como se faz;
Eu? Eu não!
Deixa ela viver do jeito dela pra dar valor;
Quem? Eu? Eu não!
Deixa a menina rebolar como quiser pra entender o que é de quem;
Eu é que vou saber?
Não sei! Mas a vontade ta aí;
Que dá vontade dá, e daí?
Deixa a menina solta pra saber o que é o vento;
Ta ventando?
Requebra no relento;
Eu não!
Que eu não quebro cara em dia de gente grande;
Eu? Eu não!
Que pra dar valor pro meu jeito de viver tem que se apressar;
Quem? Eu? Eu não!
Que eu não preciso rebolar pra entender o que eu não sei;
Deixa a menina voando;
Quem vai saber?
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