04 setembro 2008


VOCÊ ENCONTRA NA MINHA CIDADE
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O garoto era simpático. Dividia um apartamento na Rua das Laranjeiras com seu cachorro galgo, o aquário da irmã mais nova, a irmã mais nova, a irmã do meio, uma conhecida, a mãe, e a avó Suzana Carolina, que era, também, particularmente simpática. Era só um pouco difícil. Às vezes ele parecia não fazer parte, se sentia como se não entendesse a própria residência. É realmente esquisito digerir a idéia de que aquelas seis pessoas, sem se estressar, conseguiam se dividir em dois pequenos quartos e ainda sobrar um quarto só pra ele, por ser homem. Pra evitar qualquer constrangimento o menino preferia conviver sem essa resposta, valia mais apena não saber onde as pessoas dormiam.

Um dia, por volta do ano passado, se pegou sozinho no quarto escutando um CD do Jorge Ben. Fazia tempo que não ouvia Jorge Bem, por isso estava envolvido e levemente emocionado. Fazia sentido. Olha aí meu bem, prudência e dinheiro no bolso, canja de galinha não faz mal a ninguém. E não faz mesmo. Quis comer canja, depois desistiu. Se apegou a outras frases. Conversa, bitoca, espera, passa o rodo, para melhorar, chama pra dançar. Se sentiu esquizofrênico e também refletiu sobre o Jorge Bem ser esquizofrênico. Engenho de Dentro, quem não saltar agora, só em Realengo. Aí complicou! Engenho de Dentro? Se sentiu abandonado e concluiu ser, apesar de gordinho, muito pequeno. Onde ficavam esses lugares? Onde é Realengo? É ruim não conhecer a própria cidade.

Não avisou as mulheres, pegou a mochila vermelha, juntou uns trocados e foi em direção ao metrô lembrando que devia ter cuidado para não esquecer o guarda-chuva. Não sabia quanto tempo demoraria, mas queria chegar lá. Entrou no trem na estação Largo do Machado cantarolando as mesmas frases. Levou um livro mais não leu. Sem querer, foi parar na Saens Peña, voltou até a Estácio e trocou de linha, como se deve fazer. Viajou se divertindo: São Cristóvão, Maracanã, Triagem, eram várias informações. Engenho da Rainha? Que rainha? Nada disso. Thomaz Coelho, Coelho Neto e o Eng. Rubens Paiva só estava lá pra confundir. Chegou na Pavuna, saltou e viu que era cinza. Já era noite.

De repente o garoto parou e ficou calado dentro de todo aquele subsolo. Não tinha a estação do Engenho de Dentro? Não. Voltou pra casa lendo o livro.

3 comentários:

Betina disse...

já te disse que vc é maravilhoso? já te disse que você e seus textos são geniais? pois é.. são e você é.

sou totalmente sua fã em todos os sentidos!

Andrè disse...

Você que é uma fofa!

Leo Arnt disse...

nos meus tempos mais juvenis (xD),
quando tinha campeonato nos cantos mais escondidos do rio,
era marromenos assim... livro na mochila, curiosidade de ver coisa nova... e angustia por nao conhecer nem metade dos bairros do rio etc.
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