15 janeiro 2009


cruzaDOS novos

Minha mãe me disse que se eu quisesse poderia levar meu próprio dinheiro e comprar meu próprio lanche na cantina. O dinheiro não era meu, era dela, e eu não fazia a menor idéia do que isso queria dizer. Os cruzados novos eram uma gracinha, parecia tão frágil, e tinha ouvido falar que valiam muito! Deviam valer mesmo, minha mãe disse que com isso eu poderia ser dono do que mais me desse vontade e ficaria me sentindo extremamente poderoso. Só que ainda não era o recreio, eu estava na aula, monótona, desenhando alguma coisa que eu não me lembro, com muita burocracia.

Fiquei sentadinho na minha mesinha do lado dos meus amiguinhos escutando a tia e pensando – Fudeu, ta na hora do recreio! O sinal tocou e eu já na porta. Sai da sala, desce escada, mais escada. Anda. Escada, mais escada. Anda mais um pouquinho e entra na fila. Uma fila só de crianças. A verdade é que uma fila de crianças não impõe o menor respeito, mas eram crianças bonitas, todas da classe média alta e todas brancas. Algumas eram até meio altas. As crianças negras traziam seus lanches em potinhos parecidos com os da cozinha lá de casa, mas eram exceções, quase não tinham crianças negras, diziam que elas eram envolvidas com os bolsistas.

Na minha frente estava Camila, uma menina lindíssima que eu havia visto mijando sem pudor nenhum no cantinho do parquinho e nunca mais saiu das minhas lembranças. Foi uma cena marcante. Bizarra e marcante. Ela foi para a quina da parede com muita discrição, abaixou as calças, ficou nua da cintura pra baixo, urinou e me deixou maluco. Estava linda. O meu olhar tinha o mesmo grau de despudor do desempenho nu dela. Fiquei encarando, assistindo a performance. Acho que ninguém mais viu. Acho. Não comentei com ninguém e nem escutei comentários sobre isso vindo da parte de ninguém. Passei a perceber a Camila todas as vezes possíveis, mas ela não me notava, nem sabia da nossa intimidade. Era uma menina discreta, mas sabia lidar com cruzados novos como ninguém. Comprou seu lanche como se fizesse isso há anos, e eu admirei o momento.

Minha vez! Oba! E agora? A gordona me perguntou o que eu queria. Ih! Eu não fazia a menor idéia do que eu queria! Eu queria ajuda! Pelo amor de Deus, o que eu faço!? Fiquei paralisado e a gordona reclamou comigo. O quê que se compra? Já sei! Dei uma nota meio abstrata pra ela e pedi pirulito. Ela me devolveu um papelzinho com números e umas moedas. Não entendi as moedas, mas entendi o papelzinho, aquilo era o caminho do pirulito. No balcão era bem complicado, muita informação. Não sabia se me comunicava com aqueles adultos estranhos, se procurava a Camila ou se desistia do pirulito e ia pra casa com aquele papelzinho branco mesmo. Acabou que uma mão pegou o papel e falou alguma coisa em gromelô pra mim. Eu disse – pirulito. E o pirulito veio.

Acabou. Perdeu a graça. Fim. E eu nem ofereci uma lambidinha (nas intenções menos sexuais do mundo) pra Camila. Que lanche de merda, queria um sanduíche. Quem sabe se eu tivesse pedido pra minha mãe pra ser bolsista ela tinha me arrumado alguma coisa melhor.
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5 comentários:

Leo Arnt disse...

cara
você teve que ir looooonge nessa

a propósito, muito santo inácio isso

Andrè disse...

Baseado em fatos veridicos

Isabella disse...

a tal historia da menina do xixi no parquinho...

Andrè disse...

Essa!...

Cris Chevriet disse...

adoro sua prosa