16 outubro 2008


DE braguilha aberta ele foi caminhando

De braguilha aberta,
Ele foi caminhando sem pensar aonde ia.

Pensou sobre o tempo,
Pensou sobre as cores,
Pensou que o que vai vem
E que seu pai estava errado.
Assumiu seus amores
E seguiu pela areia deserta,
De braguilha aberta.

Ele foi caminhando sem saber aonde ia,
Mas parou pro que vinha.

Na praia sozinha
Surgiu uma moça,
De vestido curto e frágil,
Atrasada pra fazer o penteado.
Se chamava Karina
E foi-se embora voando,
E o menino olhando.

De braguilha aberta,
Não reparou se a menina desapareceria.

Reparou que era outra,
Mais bonita, que vinha.
Uma bem mais simpática,
Com calor de vizinha.
Essa não foi-se embora,
Ficou pra falar do mar
E pra, quem sabe, tentar avisar.

Então, ficou parado pra pensar aonde ia,
Mas não sabia se queria.

Deslumbrado com a loira
Esqueceu da mulata,
Porque a loira era alta
E pestanejava falar.
Desejava escutar
Sem saber o que vinha,
A voz dela era tão bonitinha.

De braguilha ainda aberta,
Pediu um beijo pra ver se a menina daria.

O beijo foi dado
Com imenso cuidado,
Provocou sussurrinhos
E ainda se ouviu um obrigado
Da menina Roberta,
Que não pretendia dizer nada
Além de avisar da braguilha aberta.

Com a calça lacrada,
Pediu e ganhou outro beijo e depois voltou pra casa.

15 outubro 2008


TWIN TOWERS VIDIGAL HOTEL Plaza


09 outubro 2008


as MINHAS MULHERES não são minhas

As minhas mulheres não são minhas. E mesmo assim, dia após dia, eu me submeto a elas. São tão delas próprias que eu me calo, eu obedeço. A revolta sobe até o gogó, sim, mas já no clima da desistência, querendo descer. O sorriso delas é mais forte, o choro, a raiva é mais forte, a dissimulação é mais forte, elas são enormes. Fascinantes, elas nunca foram minhas, e, se foram, esqueceram de me avisar. Já foram tantas e, por mais minhas que fossem, nunca minhas. Não que fossem de outros, muitas vezes sim, muitas vezes não, mas apenas não me pertenciam. Digo isso sem obsessão de posse, estou citando um tipo de coisa muito mais suave e absolutamente mais intensa. É impossível, é inviável não aceitar, não acatar, não querê-las por perto. A sedução é longa, o perigo é breve. Elas são lindas! Venenosas, me enlaçam de propósito, só pelo prazer de jurar que não havia intenção de enlaçar. A engenharia masculina não se mostra suficientemente a altura do maquiavélico raciocínio óbvio das malditas arquitetas. Tão puras e belas quanto más e astutas, elas decidem. Me deixam com febre e despertam uma obsessão fantástica, de tão boba. Deliciosas, me comandam se quiserem, mas só quando querem. Se não precisam, me deixam livre o suficiente pra pensar que eu mando em mim. Não mando, não. Sou inteiramente delas. Fico pensando que talvez a culpa seja minha, me falta força, falta vida. Talvez seja culpa delas, é controle demais, é descontrole demais e é tanta inocência que não existe inocência nenhuma. Exageradamente frágil é a minha paixão, pra passar por cima de toda essa capacidade de tudo, que já nasce com elas. De onde vêm esses furacões? Loucas, se perdem nos próprios pensamentos impróprios, e calmas, percebem e anotam cada passo, a cada milímetro, a fim de concluir o que provavelmente será desnecessário. Malucas. Fantásticas. Arrogantes. Vale mais apena aceitar o desprezo do que conviver com a falta. Gostosas, mimadas e necessariamente interessantíssimas, acabam comigo. Como é possível? De onde elas brotam, assim, previsíveis e surpreendentes? É o egoísmo da independência! Cheias de si, é como acontece – sempre delas mesmas, nunca minhas.

08 outubro 2008


ÀS VEZES não escovo o dente
.
Quase ninguém que me conhece é otário
Eu sou
Nenhum deles tem cheiro de otário
Eu tenho
Eu me apaixono por todo mundo

Eu me olho no espelho e vejo uma cara de bobo
Que parece cara de gente magra
O cabra que sente a barriga tremer
De noite no susto, não tem vontade de nada
.
As mulheres que me amam
Não são as mulheres que eu peço
Os homens que eu amo
Não são os homens que me pedem

O desespero infla e o camarada fica em casa
Filosofando da vida, reclamando das vacas
Quem escuta a vizinha tem ouvido absoluto
Mas quem não ouve ninguém tem orelha afiada

Ninguém, das pessoas que eu conheço, é escroto
Eu sou
Ninguém nem parece escroto
Eu pareço
E às vezes tenho inveja dos outros

02 outubro 2008

01 outubro 2008


a mulher de COPACABANA

As dez pras seis uma mulher acordava dentro de um lugar estranho. Digo “dentro” porque era um local especificamente lacrado por uma porta de ferro, que corria de cima a baixo das pilastras. Não se sabia de absolutamente nada. A mulher não sabia quem era, não sabia seus planos e, finalizando a agonia, não sabia nem uma historinha sobre o que vinha antes - uma pessoa sem passado. Na verdade, passado a moça devia ter, mas não parecia, as memórias não chegavam nem a apontar que existissem. Uma desmemoriada. Ficou sentada em um banco no calçadão por doze horas seguidas tentando se lembrar de alguma coisa, quase um dia inteiro em função daquilo. Só sabia que havia despertado dentro de um bar estranho, com alguns poucos gatos feios.

Acordou do sonho, que desconhece, como quem estivesse se afogando. Levantou, olhou em volta, conferiu os bichos e não entendia nada - Onde mesmo era isso? Não sabia de pistas que explicassem como acabou por dormir sozinha atrás de uma grade de ferro. O barulho da porta sendo levantada as seis e treze foi um alivio, mas um alivio incerto. O português mestiço com sotaque carioca disse aos berros que saíssem. Deveria ser para os gatos, mas ela aproveitou para obedecer e sair logo dali. Apesar da impossibilidade do fato, acreditou que o sujeito não tinha notado que estava lá e pensou – foda-se!

Se deparou com Copacabana, disso ela lembrava, quase na esquina da praia. Sem sentir fome, foi na direção do mar e caminhou um bom pedaço de calçada. Sentou no banco e ficou. Ali, sem nada pra fazer, ficou. Muito. Pensar na vida não tem propósito quando não existe coisa pra pensar, só é coerente pensar no que está acontecendo no momento, o presente, ao pé da letra. Ela olhava pra frente e não fazia sentido. Olhava pros lados e não via nada. E olhando nos olhos das pessoas se sentia como quando olhava pro lado, ninguém olhava pra ela, ou, quando olhavam, era absolutamente sem querer. Não estava sendo vista. Ficou de pé. Permaneceu assim por uma meia hora, sem mexer um músculo. Estava sentindo falta de no mínimo ser tratada como maluca em vez de ser completamente ignorada por uma população inteira. Tentou sorrir pra chamar atenção e não chamou ninguém. Cantou. Como não podia se lembrar de músicas antigas, na verdade apenas cantarolou, e foi tremendamente inútil. A desgraçada era desmemoriada e basicamente invisível. Foi por isso que, por fim, acabou por se sentar no tal banco e permanecer, até escurecer, sem sentir fome. Realmente foi só isso mesmo que ela fez.

Quando a escuridão das luzes passou a incomodar os olhos, se levantou. Pra onde ir? Bom... Voltou tudo. Andou de costas pra testar a percepção alheia, durante o caminho inteiro, até se ver novamente cara a cara com a Duvivier – rua onde tinha acordado. Nessa rua aproveitou pra durar mais um pouco, já que havia durado tanto nos outros lugares ao longo do dia. Que dia vazio.

Retornou ao bar. Parou na porta e refletiu em silencio, mais uma vez, por um tempo longo bem significante. Entrou pisando em ovos pra não ser reconhecida, ao contrario do que desejou em todos os outros segundos da memória. Sentou no balcão. Era diferente com luzes. Cartazes de bebidas ruins e diversos outros clichês estavam espalhados pela parede, só não estavam os gatos. Não foi atendida e não se espantou por isso, estava digerindo a idéia de não ser levada em conta. Até as três horas da manhã não falou, não recebeu nenhum olhar, nenhuma palavra doce e, por incrível que fosse, nenhum xingamento. Três em ponto, ao ver a porta do bar ser fechada, exclamou – Ué! Não teve resposta, foi novamente lacrada. A magnífica volta ao seu mais recente útero. Não estava à vontade. Tentou respirar pra acalmar os nervos, mas parece que depois de trancado aquilo fedia muito. Tédio. Chegou a achar o tédio corriqueiro, mas, como só tinha vivido um único dia, nada podia ser taxado como corriqueiro. Fazendo um barulho no teto os gatos surgiram de um buraco invejável para se esconder. Pronto. Não tinha rumo e nem idéia do que poderia se chamar de ontem nem de amanhã, mas tinha companhia, podia dizer que voltara pra casa, por mais que não. Voltou e encontrou os mesmos integrantes que tinham sido abandonados por ela de manhã, é assim que as famílias fazem. Viu que não precisava de outros alívios para suas inseguranças. As quatro e dez, dormiu tranqüila, apesar dos pesares.