01 outubro 2008


a mulher de COPACABANA

As dez pras seis uma mulher acordava dentro de um lugar estranho. Digo “dentro” porque era um local especificamente lacrado por uma porta de ferro, que corria de cima a baixo das pilastras. Não se sabia de absolutamente nada. A mulher não sabia quem era, não sabia seus planos e, finalizando a agonia, não sabia nem uma historinha sobre o que vinha antes - uma pessoa sem passado. Na verdade, passado a moça devia ter, mas não parecia, as memórias não chegavam nem a apontar que existissem. Uma desmemoriada. Ficou sentada em um banco no calçadão por doze horas seguidas tentando se lembrar de alguma coisa, quase um dia inteiro em função daquilo. Só sabia que havia despertado dentro de um bar estranho, com alguns poucos gatos feios.

Acordou do sonho, que desconhece, como quem estivesse se afogando. Levantou, olhou em volta, conferiu os bichos e não entendia nada - Onde mesmo era isso? Não sabia de pistas que explicassem como acabou por dormir sozinha atrás de uma grade de ferro. O barulho da porta sendo levantada as seis e treze foi um alivio, mas um alivio incerto. O português mestiço com sotaque carioca disse aos berros que saíssem. Deveria ser para os gatos, mas ela aproveitou para obedecer e sair logo dali. Apesar da impossibilidade do fato, acreditou que o sujeito não tinha notado que estava lá e pensou – foda-se!

Se deparou com Copacabana, disso ela lembrava, quase na esquina da praia. Sem sentir fome, foi na direção do mar e caminhou um bom pedaço de calçada. Sentou no banco e ficou. Ali, sem nada pra fazer, ficou. Muito. Pensar na vida não tem propósito quando não existe coisa pra pensar, só é coerente pensar no que está acontecendo no momento, o presente, ao pé da letra. Ela olhava pra frente e não fazia sentido. Olhava pros lados e não via nada. E olhando nos olhos das pessoas se sentia como quando olhava pro lado, ninguém olhava pra ela, ou, quando olhavam, era absolutamente sem querer. Não estava sendo vista. Ficou de pé. Permaneceu assim por uma meia hora, sem mexer um músculo. Estava sentindo falta de no mínimo ser tratada como maluca em vez de ser completamente ignorada por uma população inteira. Tentou sorrir pra chamar atenção e não chamou ninguém. Cantou. Como não podia se lembrar de músicas antigas, na verdade apenas cantarolou, e foi tremendamente inútil. A desgraçada era desmemoriada e basicamente invisível. Foi por isso que, por fim, acabou por se sentar no tal banco e permanecer, até escurecer, sem sentir fome. Realmente foi só isso mesmo que ela fez.

Quando a escuridão das luzes passou a incomodar os olhos, se levantou. Pra onde ir? Bom... Voltou tudo. Andou de costas pra testar a percepção alheia, durante o caminho inteiro, até se ver novamente cara a cara com a Duvivier – rua onde tinha acordado. Nessa rua aproveitou pra durar mais um pouco, já que havia durado tanto nos outros lugares ao longo do dia. Que dia vazio.

Retornou ao bar. Parou na porta e refletiu em silencio, mais uma vez, por um tempo longo bem significante. Entrou pisando em ovos pra não ser reconhecida, ao contrario do que desejou em todos os outros segundos da memória. Sentou no balcão. Era diferente com luzes. Cartazes de bebidas ruins e diversos outros clichês estavam espalhados pela parede, só não estavam os gatos. Não foi atendida e não se espantou por isso, estava digerindo a idéia de não ser levada em conta. Até as três horas da manhã não falou, não recebeu nenhum olhar, nenhuma palavra doce e, por incrível que fosse, nenhum xingamento. Três em ponto, ao ver a porta do bar ser fechada, exclamou – Ué! Não teve resposta, foi novamente lacrada. A magnífica volta ao seu mais recente útero. Não estava à vontade. Tentou respirar pra acalmar os nervos, mas parece que depois de trancado aquilo fedia muito. Tédio. Chegou a achar o tédio corriqueiro, mas, como só tinha vivido um único dia, nada podia ser taxado como corriqueiro. Fazendo um barulho no teto os gatos surgiram de um buraco invejável para se esconder. Pronto. Não tinha rumo e nem idéia do que poderia se chamar de ontem nem de amanhã, mas tinha companhia, podia dizer que voltara pra casa, por mais que não. Voltou e encontrou os mesmos integrantes que tinham sido abandonados por ela de manhã, é assim que as famílias fazem. Viu que não precisava de outros alívios para suas inseguranças. As quatro e dez, dormiu tranqüila, apesar dos pesares.

4 comentários:

Anônimo disse...

Finalmente cá estou eu abrindo seu blog.
Muito, muito bom Parabéns! Seus textos demonstram o seu talento.
Um beijo Sonia

Andrè disse...

Obaaaaaa

Pedro disse...

consistente!!!

Leo Arnt disse...

sua visão de Copacabana sempre foi assim, né? qual é a origem disso?