01 julho 2009

BREVES relatos de uma fumante abandonada

Mesa tipo escrivaninha. Uma mulher dorme sobre anotações sem importância. Um quadro com uma foto, tipo desenho feito a mão, está pendurada na parede. O abajur acende. Ela acorda. Começa a procurar por algo.

Achei. Minha piteira. (para o retrato) Estava torcendo para que eu não encontrasse, não é desgraçado? Mas achei. Vício é vício. Larguei a nicotina, passei pra piteira. Eu já acordo com a piteira na boca. Só não durmo com ela porque o lábio não obedece, porque por mim eu dormia. Eu sonho com isso, não com a piteira, é claro, com o cigarro. Nossa, eu sinto a fumaça entrando, dando uma limpada, e saindo de novo. Depois ela fica envolta, uma nuvem. É tudo muito mágico. É como um orgasmo. As pessoas tem mania de falar mal da nicotina. Mas esses são os que nunca experimentaram ou os ex-amantes da droga traumatizados. A nicotina é sutil, de repente você se nota apaixonado. E se largar é fossa! Nas épocas de amor maior, de dependência, eu tragava até Derby. E com vontade! Que saudade de uma tragada bem dada... Cadê meu maço, hein? (procura e encontra) (acende um cigarro) Eu também não tinha largado de verdade, eu não fumo só faz cinco dias. Foi o Roberto que me passou o vício. Ele fedia a cigarro, inteiro. Eu perdi minha virgindade com esse canalha. E não foi convencional não. (para a foto) Você me deixou maluca, Roberto. Calhorda. Estou louca. Eu não sei se você reparou, mas eu estou conversando com a parede oposta à minha escrivaninha, me referindo a um retrato e até um minuto atrás eu dava tragadas em uma piteira. O Roberto desapareceu da minha vida do nada, logo depois que apareceu. Pra falar a verdade eu não sei nem se o nome deste infeliz é Roberto. Sei lá, combina com ele. Eu achei melhor inventar alguma porcaria do que chamar de moço. Eu tenho que chamar de alguma coisa. Enfim, Roberto. Eu conheci o Roberto em uma madrugada em Laranjeiras. Ponto de ônibus. Eram duas e quinze da manhã. Ninguém na rua. Só aquele negão enorme me olhando fixo. Eu era mínima. Joguei meu chiclete fora e fingi que nem vi. Tava morrendo de medo. Aí resolvi encarar. Por dois segundos. Pois é, dois segundos, foi o suficiente. Só lembro de mim no chão, morrendo de medo e olhando pra ele, completamente bêbado. “Tá pensando o que da vida garota?” Pá. (gesticula um tapa) Foi a deixa para eu começar a chorar. E fiquei lá, chorando, ia fazer o quê? Me deu um chute nos peitos que eu fui parar no chão. Filho-da-puta. Uma garotinha que não sabia nem o significado da palavra sexo. Começou a me cutucar e me dar chutinhos pelo corpo. Nada que doesse, mas me fez chorar ainda mais. Ele se ajoelhou encaixando o corpo enorme dele, de negão, na minha barriga. Não saia uma palavra da minha boca. Só pude notar a mão dele tentando me acariciar, e conseguindo, é claro. Pegou no meu pescoço e me puxou, devagarinho. Eu engoli o choro e qualquer palavra que tivesse na minha cabeça. Ele olhou bem dentro dos meu olhos e falou – “Relaxa, meu amor.” Eu pensei – é. Olha, não tinha para onde fugir, ninguém ia aparecer para me ajudar, não passava ônibus há uma meia hora. A minha saída foi ficar tranqüila. Vou dizer que relaxar de verdade eu não consegui. E não gostei, na hora. Hoje eu tenho noção de como foi bom. Que negão era aquele? Aquilo é um ser abençoado. Pois quando vi já estava de costas, deitada. Com muito medo ainda, neh! Imagina se eu iria relaxar. Mas dei um jeito e consegui me virar. Fiquei encarando ele, e depois parei. Estava molhada. Urinada. Morrendo de medo. Ele tentou beijar minha boca mas acabou beijando meu nariz. Pôs o dedo no topo da minha testa e foi descendo, bem devagar. Eu comecei a gostar, mas ao mesmo tempo odiava. Engraçado que ele não tentou tirar minha blusa. Parou o dedo no meu umbigo. Bom, aí foi a sua hora não é? Me desvirginou. Seu tarado. Roberto, uma garotinha. Pedófilo. Oh negão gostoso. Olha, já escutei que bêbado trepa mal, mas isso é uma mentira que parecia que aquele homem tinha tomado uma catuaba! Pois é, ele se desgrudou e eu já pus logo a mão na saia. Mas minha cabeça estava tombada pra trás. Eu não sabia o que eu estava sentindo. Sei lá, tinham me estuprado. E em Laranjeiras. Eu devia achar uma merda, mas vou fazer o quê? Gozei. Melhor, gozei não, tive um orgasmo. O único. Sabia, Roberto? O único orgasmo da minha vida! A minha vontade, diferente de qualquer outra que estivesse no meu lugar, era ficar com aquele cheiro suado de cigarro banhado a álcool no meu corpo, pra sempre. Por mim eu ficava sem tomar banho por uns três dias. Antes de ir embora o Roberto jogou o maço de cigarros dele perto de mim. Com minhas últimas forças peguei aquele negócio e antes de abrir cheirei. Tinha um isqueiro lá dentro, e um cigarro. Você é tão fofo, Roberto. Ficou com peninha, neh amor? Resolveu ser solidário. Um cigarro! Bom, acendi. Quando eu cheguei em casa contei pra minha irmã, mas, é lógico, não falei do orgasmo, e ela me obrigou a ir na polícia e fiz um retrato falado. A única lembrança que eu tenho dele. Minha alma gêmea. Meu encaixe perfeito. Eu mesma nunca me permiti ir atrás deste cafajeste. A única maneira que eu encontrei de não deixar o Roberto desaparecer da minha vida foi assim, fumando. O cigarro me passa toda aquela luxúria que eu senti naquela noite. Eu tenho orgasmos contínuos quando estou fumando. Eu sinto aquele homem dentro de mim. Se eu tiver que morrer por causa do cigarro, que venha o enfisema! Porque você não vai sumir de novo da minha vida. Ah, não vai. Não vai não.

14 comentários:

Pedro Thomé disse...

essa é a cena que você ta de luana né?

haha

mto foda

Anônimo disse...

aaah um cigarrinho de vez em quando não faz mal a ninguem.

até relaxa..

Daniel Belmonte disse...

Há, curti mto!

E essa foto do final?!

Andrè Dale disse...

é ele!

Yasmin Gomlevsky disse...

tenho lido esse blog sempre... um melhor do que o outro! parabéns!

Andrè Dale disse...

Que delicia!

luizayabrudi disse...

meu deus! você deu um nó na minha cabeça agora, andré! não sei mais o que eu penso do estupro (do estupro bem feito, é claro)

Andrè Dale disse...

hehehehehe

Cris Chevriet disse...

vontade e liberdade são a mesma coisa, acho que não...dé vc tem que me explicar isso rs, bjs

Andrè Dale disse...

hehehehe roubei essa frase do ultimo texto do blog do saulinho.
já esteve por lá?

luizayabrudi disse...

andré, saudade de você!

cris braga disse...

André, eu vi vc no Tablado com esse texto...rsrsrsrs...amei...bjo

Andrè Dale disse...

Uma nova cris por aqui.... que maravilhosa presença!

Joi. disse...

demaisss!

fiz um blog pra mim hj. te citei lá.

abração!

http://joizappa.blogspot.com/