31 outubro 2008


Tinha um BURACO

A meia-noite do dia passageiro no qual se constata a derrota política do último final de semana, estava eu, jogado na minha cama de barriga pra cima, inteiramente nu. Muito triste. Acendi um cigarro e escutei umas batidas na porta. Não liguei, pra aliviar o sadismo, mas me vesti com uma cueca, já imaginando que a pessoa abriria a porta, mesmo sem permissão. Bom... Era o Bob Esponja. (Silêncio) Juro por Deus! Eu tinha acabado de assistir o Felipe Rocha convencer uma platéia de varias coisas, fui pra casa escutando Nat King Cole, tomei banho e fui pro meu quarto. É claro que foi estranhíssimo, ainda tentei pensar se não estava confundindo a fisionomia dele com algum conhecido qualquer, mas, não, era o Bob Esponja. Com voz de Bob Esponja, todo amarelinho!

Levantei e fechei a porta dos outros quartos pra não perturbar. Refleti por alguns minutinhos curtinhos e fui saber o que ele queria. De uma forma bem rápida me alertou de alguma coisa chatíssima que estava acontecendo na rua, sei lá que diabo de coisa era exatamente. Mas, me vesti rápido, peguei o iPod e o maço de cigarros e fui pra rua com ele.

Eu estava lá, caminhando com aquela criatura estressadíssima, enlouquecida, do meu lado, ainda pensando muito na história do segundo turno. Logo que saímos de casa eu botei o Little Richard gritando no meu ouvido. Não estava escutando nada, mas de longe já dava pra ver o tamanho da confusão e da revolta das pessoas, sei lá com quem. Fui me aproximando com muita calma. O iPod estava cantando “Good golly Miss Molly” e eu ouvindo, com uma vontade completamente controlável de dançar.

Me distraí por um segundo e me perdi do Bob. Foi bem agradável. Ainda calmo, só que um pouco menos, tentei me infiltrar na multidão e me saí muito bem. Tinha um buraco. Exatamente no cruzamento da Rainha Guilhermina com a Dias Ferreira, exatamente mesmo, tinha um buraco enorme. Enorme! Na verdade eu não fui muito claro. O buraco não era grande, era gigantesco! Quando eu disse exatamente no cruzamento, eu queria dizer que o buraco estava milimetricamente no centro do cruzamento das duas ruas, se estendendo com muita clareza até onde eu mesmo não conseguia acreditar. O diâmetro era muito significante também. Me expressei mal novamente, não era um diâmetro, era apenas uma largura. Não era um buraco redondo, ele se estendia pela Rainha Guilhermina de forma integral! Agora fui claro? Era um buraco que ligava uma ponta da rua a outra! Levando em conta que no principio da rua fica a praia, e no outro lado o canal, e levando em conta também que estava passando água pelo buraco, eu pude concluir que estava sendo formado, ali, na minha frente, um novo canal do Leblon. Era uma visão inacreditável. Os carros estavam malucos, o transito não sabia como se resolver, devia estar um barulho desagradabilíssimo de buzinas e etceteras, mas eu ainda estava escutando Little Richard, e achando tudo lindo, esteticamente falando. As metades da Rainha se separaram com muita classe, nada ficou destorcido, os prédios continuaram intactos, só que bem mais afastados, estava realmente muito interessante. E dava pra passar meio carro de cada lado.

Era um inicio de madrugada, eu não tinha compromisso nenhum e nem hora de acordar no dia seguinte, então, sentei. Eu estava intrigadíssimo com a questão toda do buraco e também com a vergonha política, mas a música estava muito boa, queria me concentrar. Me agachei com muito calma e ritmo. Sentei na beirinha da vala, com as perninhas balançando. Era um visual inenarrável!

Na verdade, depois de uma hora parado, olhando a água passar e achando tudo muito estranho, enjoei do Little Richard. Pausei. As sensações sem iPod eram péssimas, as pessoas estavam malucas, correndo, gritando, mijando! Eu estava tranqüilo, o que eu poderia fazer pra ajudar? Aliás, eu nem queria ajudar, estava quase buscando a sunga pra dar um mergulho. Teria sido ótimo! Mas aí, sentadinho no meio daquela coisa toda, fui ficando deprimido. A porra da eleição estava me perturbando, não tinha mais jeito, o que se podia fazer era se acostumar! Eu não sabia como... Ainda não sei como. Não sei como aceitar que a maioria dos meus coleguinhas de cidade preferiu o camaradinha que ganhou.

Foi amanhecendo, os malucos foram sumindo, a polícia também e o buraco não. Eu me acostumei com a imagem, aceitei a paisagem nova. Era quase de manhã e eu basicamente sozinho. Na hora de sair de casa, acabei levando um baseado dentro do maço de cigarros, nem reparei. Mas já que ele existia, acendi a brincadeira! Foda-se se um policial aparecer, tem um buraco, porra! Alguém tem que fechar essa caceta! Numa hora dessas pode tudo! Fiquei fumando numa boa, ninguém falou nada, a não ser o flanelinha que me pediu um tapa. Não sei se eu estava muito doido, mas acho que vi o Bob Esponja passar boiando pela correnteza, bem na minha frente! Então foi isso... A partir desse dia teríamos uma lasca de ferida aberta na Rainha Guilhermina. A melhor coisa a fazer era sair dali e ir direto à Rio Lisboa, nada como uma canoa na chapa pra finalizar com sarcasmo!
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Rainha Guilhermina

2 comentários:

Betina disse...

você é tão doido, garoto! acho que é por isso que eu gosto! hahaha

Anônimo disse...

Show, moleque! Gosto da linha, narrativa mordaz e sem medo. Pensa num livro, quem sabe um dia.

Tio Joca